segunda-feira, 7 de setembro de 2015

ÉTICA DA PSICANÁLISE – 1963

“Os psicoterapeutas exercem muitas atividades; o objetivo declarado é, sempre, prover “terapia”. Com freqüência, no entanto, as tentativas de “tratar” um paciente são, na verdade, esforços para converter sua conduta em algo diferente daquilo que ela é.” (SZASZ: 1964, 12)

“Se o indivíduo é uma pessoa, só pode ter uma personalidade. (...) No entanto, embora a pessoa só possa ser ela mesma de uma única maneira, pode fingir ser alguém diferente de muitas outras maneiras.” (SZASZ: 1964, 56)

“O apelo emocional das palavras usadas para descrever o que as pessoas fazem é particularmente importante e perigoso nas denominadas profissões de auxílio, e em nenhuma outra mais do que em psiquiatria.” (SZASZ, 1964: 78)

“Qualquer pessoa pode alegar que se importa com aqueles que sofrem e que deseja ajudá-los. No entanto, se quisermos compreender o que os “curadores mentais” fazem, em vez de nos postarmos em admiração diante deles, devemos julgar o trabalho do psiquiatra e do psicoterapeuta como julgamos o de qualquer outra pessoa pelo que fazem e não pelo que dizem que fazem.” (SZASZ: 1964, 79)

“Na linguagem do cotidiano, a palavra “contrato” designa um acordo entre duas ou mais pessoas quanto a fazer ou deixar de fazer alguma coisa. Um contrato é uma negociação, um pacto, uma promessa. A situação humana denotada por esses substantivos – e as ações que a ocasionam, descritos por verbos como “negociar” e “contratar” – são de relevância especial perante a lei. Em teoria legal, define-se “contrato” como uma promessa ou conjunto de promessas, cujo não-cumprimento implica sanções previstas nas leis. Portanto, a definição legal de contrato reconhece que o mesmo pode ser rompido.” (SZASZ: 1964, 117)

“(...) o contrato acentua a posição moral da criatura humana pela limitação das oportunidades de um indivíduo prejudicar outro.” (SZASZ: 1964, 123)


“Uma pessoa só é livre quando reconhece as circunstâncias em que será punida; pode manter sua liberdade não praticando atos proibidos.” (SZASZ: 1964, 162)

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IDEOLOGIA E DOENÇA MENTAL – 1970

“Se a liberdade é a capacidade de escolha livre de coerções, então o homem nasce aprisionado. E o desafio da vida é a libertação.” (SZASZ, 1980: 9)

“A crença na doença mental, como algo diferente do problema do homem em conviver com seus semelhantes, é a própria herdeira da crença em demônios e feitiçaria.  Assim, a doença mental existe ou é “real” exatamente no mesmo sentido no qual as feiticeiras existiam ou eram “reais”.” (SZASZ, 1980: 27)

“O mito da doença mental nos encoraja a acreditar em seu corolário lógico: que a interação social seja harmoniosa, satisfatória e a base segura para uma vida saudável, não fosse pelas influências desagregadoras da doença mental, ou Psicopatologia.” (SZASZ, 1980: 29)

“Não nos esqueçamos dos perigos de tentar compreender uma outra pessoa: o esforço pode acarretar a refutação de nossos pontos de vista ou questionar nossas crenças. O indivíduo solícito que está disposto a ensinar pelo exemplo de sua própria conduta deve estar pronto a reconhecer suas falhas e modificar suas maneiras. Mas isto não é o que o psicoterapeuta quer: ele não quer modificar suas maneiras, mas as dos outros.” (SZASZ: 1980, 44)

“(...) os termos de diagnóstico psiquiátrico não descrevem entidades de moléstias identificáveis, mas, em vez disso, degradam e anulam a pessoa a quem se fixam.” (SZASZ, 1980: 61)

“Por algum tempo tenho sustentado aqui que o confinamento - isto é, a detenção de pessoas em instituições psiquiátricas contra sua vontade – é uma forma de aprisionamento; que tal privação de liberdade é contrária aos princípios morais incorporados à Declaração de Independência e à Constituição dos Estados Unidos; e que é uma violação crassa dos conceitos contemporâneos de direitos humanos fundamentais. A prática de homens “sãos” encarcerando seus semelhantes “insanos” em “hospitais psiquiátricos” pode ser comparada àquela de homens brancos escravizando homens negros. Em resumo, considero confinamento um crime contra a humanidade.” (SZASZ, 1980: 111)

“Por milhares de anos a escravidão foi considerada como um ajuste social “natural” para assegurar o trabalho humano; foi sancionada pela opinião pública, dogma religioso, igreja, e Estado;” (SZASZ, 1980: 111)

“Para manter uma relação de superioridade pessoal ou de classe, é necessário, via de regra, que o opressor mantenha o oprimido desinformado, especialmente sobre os assuntos pertinentes a seu relacionamento.” (SZASZ, 1980: 127)

“Qual a evidência de que o confinamento não serve ao propósito de ajudar ou tratar as pessoas cujo comportamento se desvia ou ameaça normas sociais ou padrões morais prevalentes?

1 – Evidência moral – Em sociedades livres, o relacionamento médico-paciente é baseado na presunção legal de que o indivíduo “possui” seu corpo e sua personalidade. O médico pode tratar e examinar seu paciente somente com consentimento. (...) O confinamento é incompatível com este princípio.

Um psiquiatra que aceita como seu “paciente” uma pessoa que não deseja sê-lo define-o como um “mentalmente enfermo”, o encarcera numa instituição, impede sua fuga da instituição, nega seu papel de paciente psiquiátrico e passa a “tratá-lo” contra sua vontade – tal psiquiatra, sustento, cria “doença mental” e “pacientes psiquiátricos”. Ele o faz exatamente do mesmo modo que o branco que foi à África, capturou o negro, trouxe-o para os Estados Unidos em algemas e, então, o vendeu como se fosse um animal, criando a escravidão e os escravos.”  (SZASZ, 1980: 131)

“O ato de nomear ou classificar está intimamente relacionado com a necessidade humana de controle ou domínio”. (SZASZ, 1980: 185 – 186)

“Nas chamadas sociedades “livres” é antiquado opor-se abertamente à liberdade. Porém, nem todo mundo ama a liberdade. Muitas pessoas valorizam bem mais a saúde e a segurança. Portanto, os inimigos da necessidade de liberdade não a atacam diretamente. Ao invés disso, podem dissimular sua oposição com o argumento da proteção da saúde, especialmente a saúde mental.” (SZASZ, 1980: 193)

“Por mais difícil que seja controlar os homens, é ainda mais difícil não controlá-los: reconhecer sua autonomia e respeitar sua liberdade.” (SZASZ, 1980: 203)
“(...) o propósito dissimulado da classificação psiquiátrica é o estigma social e a criação de uma classe social de bodes expiatórios justificavelmente perseguida.” (SZASZ, 1980: 223)

O MITO DA DOENÇA MENTAL – 1961

“a psiquiatria não é um empreendimento médico, mas um empreendimento moral e político”. (SZASZ, 1974: 9)

“O que eles fazem é tão simplesmente comunicar-se com outras pessoas (frequentemente chamadas de “pacientes”) através da linguagem, de sinais não verbais e códigos” (SZASZ, 1974: 19)

“a iniciativa de inventar doenças mentais, sem a restrição de critérios fixos ou a exigência de evidência empírica, resulta na conclusão de que qualquer fenômeno estudado pelo observador possa ser definido como uma doença”. (SZASZ: 1974, pág. 28)

“Na realidade, rotular os indivíduos que se sobressaem, ou que são incapacitados por problemas da vida, de “doentes mentais” apenas impediu e retardou o reconhecimento da natureza política e moral dos fenômenos para os quais se dirigem os psiquiatras.” (SZASZ, 1974: 38)

“O fato de a energia atômica ser usada na guerra não faz dos conflitos internacionais um problema da física; do mesmo modo, o fato de o cérebro ser usado no comportamento humano não faz com que os conflitos morais e pessoais sejam problemas da medicina.” (SZASZ, 1974: 39)
“o poder e o prestígio dos psiquiatras têm sido inflados pela definição cada vez maior dos fenômenos como pertencentes ao campo de ação de sua disciplina”. (SZASZ, 1974: 51)

“(...) a afluência econômica crescente também serve para estimular a demanda de serviços terapêuticos. Tão logo as pessoas têm mais dinheiro do que necessitam, sejam quais forem as necessidades de vida que considerem, elas esperam através dele serem mais felizes. E, visto que a maioria das pessoas ainda assim não conseguirá ser feliz, algumas delas utilizarão parte de seu dinheiro buscando a felicidade através da psicoterapia. Desse ponto de vista, a função social da psicoterapia é semelhante não apenas à função da religião, como também à do álcool, do tabaco, dos cosméticos e das diversas atividades recreativas.” (SZASZ, 1974: 67-68)

“é evidente que qualquer coisa que afete um extenso número de pessoas, e sobre a qual o governo ou o Estado tenham autoridade, pode ser usada como uma forma de controle social”. (SZASZ, 1974: 75)

“Devemos admitir que as mulheres não tem muito senso de justiça, e que sem dúvida isso está ligado à preponderância da inveja em sua vida mental; pois as exigências da justiça são uma modificação da inveja, estabelecendo as condições sob as quais desejamos afastar-nos dela. Também dizemos das mulheres que seus interesses sociais são mais fracos que os dos homens, e que sua capacidade de sublimar os instintos é menor.” (FREUD apud SZASZ 1974: 181)

“É fácil, obviamente, sermos céticos em relação a uma crença que não existe atualmente – mas não em relação a uma crença que ainda existe. Eis porque os intelectuais contemporâneos acham tão fácil zombar da religião e da bruxaria e tão difícil zombar da medicina e da doença mental. A sugestão de olhar a heresia como um outro modo de viver teria parecido absurda, ou mais do que absurda, na Idade Média. Atualmente, a sugestão de olhar a doença mental simplesmente como um outro modo de viver parece igualmente absurda, ou mais do que isso.” (SZASZ, 1974:188)

“estritamente falando, a doença ou a enfermidade só podem afetar o corpo; portanto não pode haver nenhuma doença mental”. (SZASZ: 1974, pág. 251)


“Obviamente, as pessoas podem mudar seu comportamento ou personalidade, com ou sem intervenção psiquiátrica. Tal intervenção é atualmente chamada de “tratamento”, e a mudança, quando se dá num sentido aprovado pela sociedade, é chamada de “recuperação” ou “cura”.” (SZASZ, 1974: 251)

DOR E PRAZER – 1957

“Os psiquiatras afirmam muitas vezes que inúmeros pacientes mentais negam a sua doença. O que querem e deveriam dizer na verdade é que esses indivíduos resistem fortemente a serem lançados ao papel de doentes.” (SZASZ, 1976, 26)